De
A Obra Ao Negro de Marguerite Yourcenar
Messer Alberico de’Numi não tardou a deixar-se prender por essa menina de seio pequenino e rosto afilado, vestida de rígidos veludos lavrados que pareciam mantê-la de pé, e enfeitada, nos dias de festa, com jóias que fariam inveja a uma imperatriz. Nas pálpebras nacaradas, quase róseas, engastavam-se uns pálidos olhos cinzentos; a boca, um pouco túmida, parecia prestes a exalar a toda a hora um suspiro ou a primeira palavra de um canto ou de uma oração. E talvez não se desejasse desnudá-la por ser difícil imaginá-la nua.
Numa noite de neve, que mais fazia sonhar com leitos aquecidos em quartos bem fechados, uma criada subornada introduziu Messer Alberico na estufa onde Hilzonda esfregava com centeio a longa e crespa cabeleira, que a cobria toda como se fosse um manto. Escondeu o rosto a menina, mas entregou sem luta aos olhos, aos lábios, às mãos do amante, o corpo alvo e limpo como uma amêndoa descascada. O jovem florentino bebeu, nessa noite, na fonte selada, aprisionou os dois cabritinhos gémeos, ensinou àquela boca os jogos e as doçuras do amor. Ao romper da alva, uma Hilzonda enfim conquistada entregou-se inteiramente, e, de manhã, raspando com a ponta da unha o vidro que o gelo embranquecera, nele gravou, com um anel de diamantes, as suas iniciais entrelaçadas com as do amante, deixando assim impressa a sua felicidade nessa substância delgada e transparente, decerto frágil, mas não muito mais do que a carne e o coração.